São 25 castas de vinhas com mais de 100 anos, plantadas em patamares pré-filoxéricos, bem mais velhos. Algumas castas menos conhecidas, como a Carvalho, a Tinta da Barca e a Donzelinho, a par das mais conhecidas do Douro, deram origem a este vinho extraordinário, preparado a partir das uvas apenas desta vinha, da Quinta do Caêdo, no concelho de S. João da Pesqueira.
Chegados ao Pinhão, fomos encaminhados para um barco, conduzido pelo Manuel Guedes, que nos levou, rio acima, até á Quinta do Caêdo, na freguesia de Ervedosa do Douro. Ali chegados esperavam-nos os dois Fernando Guedes, pai e filho, a Mafalda Guedes e mais alguns elementos da
Sogrape, á sombra de frondosos sobreiros. Seguiu-se um ritual que a Sogrape mantém, e muito bem: Mateus Rosé bem fresco em garrafas pequenas de abertura fácil, na companhia de amêndoas torradas, que não se param de comer. A que se juntou uma bola de carne acabada de chegar de Favaios.
A coisa prometia… Feitas as apresentações, fomos convidados a fazer um pequeno passeio a pé pelas vinhas, o que ajudou a compreender aquele “terroir” tão característico das vinhas velhas. A equipa de enologia e viticultura, comandada pelo Luis Sottomayor, foi inexcedível a explicar tudo duma forma
simples e acessível. Mas o tempo urgia e lá regressamos a bordo para novo passeio até ao Pinhão, rio abaixo. Depois duma refrescadela, e desta vez em veículo de quatro rodas, o destino, ali bem perto, foi a Quinta do Porto. É uma pequena jóia da Sogrape, na margem direita do rio, em frente á Quinta do Seixo, do outro lado do Douro. Foi o local escolhido para o jantar de apresentação do Legado 2020.
Estava uma daquelas noites do Douro de excelência. O serviço esteve a cargo dos irmãos Geadas, de Bragança, juntamente com a D. Nela, responsável pela cozinha da casa, que fizeram um belíssimo trabalho. A presença do cardeal Américo Aguiar foi a ligação com este Legado e com o saudoso Sr. Fernando Guedes, com quem partilhou imensas vivências, que criaram uma amizade profunda. O Sr. Cardeal partilhou algumas pequenas histórias deliciosas que viveu com o sr. Fernando Guedes. Ainda na esplanada e depois já na mesa, foi um desfile de vários petiscos, entre coisas modernas e outras tradicionais. Estávamos a apreciar a excelência do champanhe Conte 2013, quando nos serviram o vinho
verde da Quinta do Azevedo, também propriedade da Sogrape, Loureiro/Alvarinho de 2001. Um grande vinho verde, sem palavras. Que acompanhou muitíssimo bem o azedo de Bragança, carabineiro do Algarve e maçã de Armamar.









O prato principal foi um soberbo arroz de javali, servido bem quente, carne tenra a apaladada, tempero no ponto, excelente. E lá veio então o rei da noite, o tão esperado Legado 2020. Um vinho de qualidade superior, ano após ano, que nos deixa rendidos. Retinto, denso, com aromas variados de plantas silvestres, de frutos vermelhos maduros, notas de chocolate preto, de tabaco, levemente fumado, taninos grandiosos, e uma acidez e frescura notáveis, a dar alguma elegância. Um vinho sofisticado que faz lembrar os meandros do Douro, tão variados e envolventes. Este Legado 2020 já se bebe muito bem, mas vai certamente ter a capacidade de envelhecer em garrafa durante mais alguns anos. E continuar a dar-nos muito prazer a beber.
Para acompanhar o créme brulé e divagações entre o Douro e Trás-os-Montes, serviram o Porto Ferreira D. Antónia Tawny 30 anos. Um Porto superlativo, cheio de elegância, com uma acidez incrível, com excelente final.
Seguidamente, para acompanhar os queijos Terrincho, da Serra da Estrela e Azul, com compotas, a escolha caiu no Porto Ferreira Vintage 1987. E que bela escolha. Um Vintage já com 37 anos, um clássico, que se foi evaporando na companhia de queijos deliciosos.
Em fundo, imaginei a música poderosa mas ao mesmo tempo suave de Puccini, Nessun Dorma, que completou aquele cenário fantástico.
O rio Douro, ali em baixo, continuava altivo…